Sinagoga de Tomar (Portugal)

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Na Rua Dr. Joaquim Jacinto, nº 73, em pleno centro histórico da cidade de Tomar, uma casa branca, pequena, com duas janelas e uma porta, e com a Estrela de Davi em destaque e na cor azul não passa despercebida por quem passeia pela rua estreita de paralelepípedos com casas de dois andares (térreo – em Portugal diz-se “rés do chão” – e primeiro andar). É neste endereço onde está localizada a Sinagoga de Tomar, o mais antigo templo hebraico de Portugal.

Apesar da discrição na fachada, o interior da Sinagoga surpreende, pois está bem conservado e preservado. É lá onde encontra-se o Museu Luso-Hebraico Abraão Zacuto (uma homenagem ao judeu Abraão Ben Samuel Zacuto, patrono do museu, natural de Salamanca, Espanha, nascido em 1450. Astrônomo, matemático, médico e rabino, após a expulsão dos judeus da Espanha em 1492, ele foi para Portugal onde serviu ao rei D. João II. Quando os judeus foram expulsos de Portugal por D. Manuel I, Abraão Zacuto foi embora do país). A Sinagoga é tão importante para a história da presença dos judeus em Portugal que o edifício foi classificado como Monumento Nacional em 29 de Julho de 1921, após a vistoria da Associação de Arqueólogos Portugueses. Vamos então a história por trás da construção deste templo.

Quem mandou construir a Sinagoga foi o Infante D. Henrique (enquanto governador e Mestre da Ordem de Cristo), entre os reinados de D. Duarte e D. Afonso V, no século XV, entre 1430 e 1460. Foi D. Henrique o grande incentivador para que os judeus se fixassem em Tomar, tivessem um bairro próprio e, consequentemente, uma sinagoga. Ela foi construída na Judiaria, ou seja, em um bairro judeu dentro da cidade de Tomar, que começava na Rua Direita dos Açougues (atual Direita de Várzea Grande) e ia até a Rua Direita dos Moinhos (atual Rua dos Moinhos). A Sinagoga estava, portanto, entre estas ruas, porém localizada na Rua da Judiaria, posteriormente rebatizada de Rua Nova (nome dado às antigas judiarias), e hoje, Rua Dr. Joaquim Jacinto (a partir de 1890). Os visitantes podem conferir o nome das ruas antigas e atual, que está bem visível em uma “placa” de azulejos.

Vale destacar que o bairro judeu era cercado por portões, que situavam-se nas extremidades ocidental e oriental da Rua da Judiaria e que o encerramento das portas com correntes acontecia sempre entre o pôr e o nascer do sol. Outra curiosidade daqueles tempos é que devido ao isolamento provocado pelo encerramento dos portões foram feitas ligações interiores através das casas. Em algumas destas casas ainda há vestígios de como seria essa passagem.

A comunidade judaica tinha uma boa situação financeira, tendo ajudado não só no desenvolvimento econômico da região, mas também no financiamento de parte dos descobrimentos marítimos. Calcula-se que, em meados do século XV, a população judaica em Tomar tenha atingido de 30 a 40% do total de habitantes da vila, após a chegada de judeus espanhóis (cerca de 100 mil se exilaram em Portugal após a imposição do Cristianismo pelos reis católicos Fernando e Isabel) em 1492.

E não é que D. Manuel I, Rei de Portugal, fez o mesmo que os reis espanhóis? Em 1496, ele promulgou um decreto chamado de Édito de Expulsão dos Judeus de Portugal no qual forçava os judeus a se converterem ao Cristianismo ou então a abandonarem o país num prazo de dez meses (se não o fizessem teriam os bens confiscados, podendo até serem condenados à morte). Ou seja, a Judiaria seria abolida, assim como a Sinagoga que não poderia mais funcionar. Muitos dos judeus foram embora de Tomar, já outros se converteram passando a ser chamados de cristãos-novos.

Devido ao seu fechamento, a Sinagoga (que também funcionava como escola e tribunal) teve somente 50 anos de vida. Posteriormente, o edifício foi usado como prisão e cadeia pública, foi capela de São Bartolomeu e armazém de mercearias (século XIX), última atividade exercida no local antes de o edifício ser classificado como Monumento Nacional. Mas, um prédio tão importante não poderia simplesmente deixar de existir como memória do povo judeu. Assim, em 1923, a Sinagoga, que já demonstrava sinais de deterioração, foi comprada pelo judeu polonês Dr. Samuel Schwarz a Joaquim Cardoso Tavares. Ele custeou as obras de restauração e, em 1939, o prédio foi doado ao Estado Português. Mas, com uma condição: que ali fosse instalado o Museu Luso-Hebraico de Abraão Zacuto, oficialmente criado em 27 de Julho de 1939.

A Sinagoga que representava o coração da Judiaria é um templo simples. Como já foi descrito anteriormente, a Sinagoga não é muito grande, sendo um edifício de planta quase quadrangular, com 9,50m x 8,20m. No entanto, em tão pouco espaço há inúmeras, importantes e significativas referências judaicas. Logo que se entra, o visitante se depara com quatro colunas que sustentam o teto, constituído por nove abóbadas de aresta. Cada coluna tem um significado: elas representam as mães de Israel: Sara, mãe de Isaac e mulher de Abraão (à esquerda), Rebeca, primeira mulher de Jacob e esposa de Isaac (à direita), Raquel e Lia, filhas gêmeas de Labão. É interessante observar que as colunas com capitéis são decoradas de forma diferente. Em dois dos capitéis há motivos florais iguais para as irmãs, sendo os outros dois diferentes para a tia e sobrinha. As colunas estão ligadas ainda por doze mísulas que simbolizam as doze tribos de Israel.

A acústica no local é perfeita. Isto porque nos quatro cantos superiores da sala estão incorporadas oito bilhas de barro invertidas dentro da parede. Dois orifícios estão bem à vista para que os visitantes possam entender melhor. Ou seja, as bilhas em cada canto das quatro paredes funcionam como caixa de ressonância, ampliando o som da voz igualmente por todo o templo. Um recurso muito importante para as cerimônias religiosas.

Embaixo das quatro colunas, como que num pequeno altar encontra-se uma mesa com uma toalha na cor azul, uma Estrela de Davi e livros judaicos. Algumas cadeiras estão dispostas em frente à mesa e também ao seu redor. Elas servem para acomodar os turistas que visitam o local enquanto estes recebem informações sobre a história da Sinagoga. O templo é constantemente visitado por turistas acompanhados de guias de turismo. Além de ser aberto à visitação, a Sinagoga está aberta à cultos quando há judeus visitando a cidade de Tomar.

Logo no canto à direita de quem entra para a Sinagoga o turista encontra informações em um painel, onde é descrita a história dos judeus na Península Ibérica a partir do século II d.C. e da comunidade judaica em Tomar. E para quem tem pouca informação sobre a cultura judaica, há o texto informativo “Judeus, religião e prática de vida” e também o texto “Judiaria e Sinagoga de Tomar – Identificação e Importância”.

Protegidos em uma mesa de vidro estão expostos alguns símbolos judaicos, como o Kipa, a Torá (textos sagrados do Judaísmo), o Talit (manto de orações) e o Shofar (instrumento de sopro feito de chifre de carneiro). Também podem ser vistos no templo outros objetos como o prato Pessach (prato usado na Páscoa judaica), o Chanukiah (candelabro de nove braços), a cobertura de Matzot, o pão ázimo que se come na Páscoa judaica e o Sidur (livro de orações diárias). Os símbolos em exposição foram doados por famílias judaicas de várias partes do mundo. Uma curiosidade entre os objetos expostos: há uma pia de água benta, do tempo quando a sinagoga foi a capela de São Bartolomeu. Aliás, a atual porta de entrada também é um vestígio do tempo em que a Sinagoga funcionou como capela. Outros dois destaques são o Menorah, candelabro de 7 braços (símbolo da criação do mundo) e a Arca Sagrada (Aron Hakodesh) que está virada para o lado oriente, assinalando a direção da Terra Prometida, ou seja, Israel.

Na parede à direita de quem entra na Sinagoga podem ser vistos pedaços de lápides funerárias, a maioria originais, vindas de várias regiões de Portugal. Elas foram adquiridas pelo Dr. Samuel Schwarz. São registros importantes da cultura judaica como, por exemplo, a lápide alusiva ao falecimento de Rab loseph de Tomar, em 1315, proveniente do cemitério judaico de Faro. Outro destaque é a lápide da Grande Sinagoga de Lisboa do início do século XIV, em pedra calcária, encontrada após o terremoto de 1755 em Lisboa, além da lápide funerária de Beja, em mármore negro, do século XIV, e a lápide funerária de Lisboa, século XIII, entre outras que estão em exposição. As inscrições estão em hebraico.

Importante citar que em 1985 escavações realizadas na sala anexa à Sinagoga revelaram o que seria a sala de purificação, o Mikvé, onde eram realizados os banhos purificadores. Também foi encontrado um forno que seria utilizado para o aquecimento da água, além de moedas e cerâmicas de uso doméstico no local.

Horário de Funcionamento:
Inverno (Outubro a Abril)
Terça a Domingo
10h às 13h e das 14h às 18h

Verão (Maio a Setembro)
Terça a Domingo
10h às 13h e das 15h às 19h

Obs: Fechado nos dias de feriado, 1 de janeiro, 1 de maio e 25 de dezembro.

Preço do Ingresso:
Gratuito

Como chegar:
A pé:
O centro histórico de Tomar não é muito grande, por isso é fácil chegar a Sinagoga de Tomar a pé. Saindo da Praça da República, entre na Rua Infantaria 15 e depois vire na segunda rua à esquerda. Você já estará na rua Dr. Joaquim Jacinto.

A partir da estação de trem:
Ao sair da estação, entre na Avenida General Bernardo Faria e siga sempre em frente até chegar a Rua Infantaria 15 e ao cruzamento com a rua Dr. Joaquim Jacinto.

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